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Pesquisas ampliam o conhecimento sobre o Bioma Pampa PDF Imprimir
Escrito por Heleno Rocha Nazario   
Qui, 23 de Janeiro de 2014 15:51

Bioma é a palavra usada para se referir ao conjunto de diferentes comunidades biológicas - animais e plantas que interagem entre si e com o local físico onde existem. Os biomas também podem ser entendidos como verdadeiros tesouros de substâncias úteis para o ser humano, desde que haja respeito pela importância das diferentes formas de vida. Uma parte dos estudos recentes sobre a fauna e a flora regionais está ocorrendo dentro do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (PPGCB) da Universidade Federal do Pampa, localizado no Campus São Gabriel. Ali, investigações nos campos da Genética, Ecologia e Sistemática e Qualidade Ambiental trazem novos conhecimentos sobre as riquezas ocultas nos campos e que se somam a pesquisas desenvolvidas na instituição, como as que descrevem espécies antes desconhecidas pela Ciência e os esforços para saber mais sobre compostos químicos presentes em plantas medicinais comuns na região.


Substâncias desconhecidas

Uma das pesquisas em andamento no PPGCB busca descrever a composição dos venenos produzidos por duas espécies de escorpiões existentes no Pampa. O biólogo e mestrando Douglas Silva dos Santos investiga o comportamento e a biologia dos animais conhecidos popularmente como escorpião amarelo (Tityus uruguayensis) e escorpião preto (Bothriurus bonariensis). Embora sejam animais presentes em outros países e biomas, o que motivou a pesquisa foi o fato de não existir nenhuma descrição anterior das composições dos venenos desses aracnídeos.

O veneno do escorpião preto (Bothriurus bonariensis) tem a sua composição estudada em pesquisa no Mestrado em Ciências Biológicas da Unipampa. Escorpião amarelo (Tityus uruguayensis) é um dos animais estudados por Douglas em sua pesquisa no mestrado.
A pesquisa sobre a composição dos venenos do escorpião preto e do escorpião amarelo é uma das
contribuições do PPGCB para o conhecimento científico (fotos: Douglas dos Santos)

A pesquisa envolve diversas etapas, desde a captura de animais para extração de amostras de veneno até a análise da estrutura proteica. Para essa última etapa, Douglas usa a estrutura do Laboratório de Proteômica Aplicada (LPA), coordenado pelo professor Paulo Marcos Pinto. Um proteoma é o conjunto de proteínas produzidas por um sistema ou organismo, incluindo aí as alterações feitas a um grupo particular de proteínas ao longo do tempo e conforme as circunstâncias ou o estresse que esse organismo experimente em dado momento. O objetivo é identificar substâncias bioativas com interesse biológico e biotecnológico, ou seja, encontrar compostos que possam ser empregados para aplicações como a produção de medicamentos, por exemplo. O campo científico da proteômica começou a ser definido em meados dos anos 90 do século passado, no âmbito do projeto Genoma Humano, e engloba pesquisas relevantes para a Biologia e outras áreas de conhecimento.

Outros estudos incluem a análise de amostras de comunidades vegetais e de dados indicativos de alterações ambientais, pesquisas sobre genes e as suas expressões em espécies presentes na região e investigações acerca das comunidades vegetais e animais, com o objetivo de produzir conhecimento sistematizado sobre as populações e seus ambientes.

A extração do veneno é feita por meio de estímulos elétricos aplicados ao télson, parte da cauda do escorpião na qual estão as glândulas secretoras do veneno
A análise do veneno é feita na estrutura do Laboratório
de Proteômica Aplicada do Campus São Gabriel
(foto: Jeferson Camargo)


Campo aberto

O professor e biólogo Valdir Stefenon, diretor do Campus São Gabriel e um dos docentes do PPGCB, considera que vários estudos estão mostrando novos habitantes e componentes do bioma e mantendo um vínculo com a realidade regional. Um dos estudos realizados no Campus São Gabriel indicou que a exploração irracional de plantas e árvores nas margens de rios levou à extinção de algumas dessas espécies, fato que gera impactos econômicos e ambientais para a localidade. Informar a população a respeito desses fatos pode ajudar a reverter alguns desses problemas.

- Se a comunidade entende que uma pitangueira tem maior valor comercial ao se utilizar seus frutos para o consumo e produção de geleias, licores e como medicamento, para de utilizá-la como lenha – diz Stefenon.

A professora e bióloga Analía Garnero reforça o valor de novos estudos para atualizar as estimativas oficiais. A lista de aves habitantes do Pampa, por exemplo, já pode ser objeto de algumas controvérsias, e depende de mais trabalho de campo para identificar e mapear novas espécies.

- Por exemplo, a espécie Heliomaster furcifer (espécie de beija-flor conhecida pelo nome popular bico-reto-azul), citada como endêmica para o Bioma Pampa, na verdade não é endêmica, pois também é encontrada em outros biomas, como a Mata Atlântica e na região Amazônica. A espécie Sporophila hypoxantha (caboclinho-de-barriga-vermelha), citada como ameaçada de extinção, não possui esse estado de conservação na Instrução Normativa MMA nº 03, que está em vigor - exemplifica a pesquisadora.

A diversidade potencial exclusiva está relacionada às características desse ambiente. A professora Analía conta que nas primeiras saídas de campo do projeto Caracterização da Variabilidade Genética da Avifauna do Bioma Pampa foi possível observar que existe uma grande variedade de aves, a maioria desconhecida em termos genéticos.

Pesquisadores buscam identificar espécies de aves habitantes do pampa. A ave conhecida pelo nome popular quem-te-vestiu faz parte da avifauna pesquisada no Campus São Gabriel
A identificação das aves e da sua distribuição no bioma gera informações úteis para a conservação ambiental
(fotos: professora Analía Garnero (E) e professor Ricardo José Gunski (D))


Equilíbrio entre preservação e produção

O Bioma Pampa se estende por uma área de aproximadamente 750 mil km² que integra partes dos territórios da Argentina, do Brasil e do Uruguai. O site do Ministério do Meio Ambiente (MMA) informa que o território nacional abrangido pelo Pampa é de 176.496 km². Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que apenas 36% da área original mantém a vegetação nativa, por conta das lavouras e das cidades. E isso significa que há risco de se perder o conhecimento e o uso de substâncias importantes presentes na biodiversidade, além da degradação de um ecossistema.

Um dos principais fatores de desenvolvimento humano é a oferta de alimentos. E é na relação entre as atividades que garantem essa oferta, hoje reunidas sob o conceito empresarial de agronegócio e estruturadas de forma cada vez mais organizada, e as necessidades de preservação de áreas com as características mais próximas das condições originais que reside uma tensão relevante. Para a professora Analía, é importante que se busque o equilíbrio entre a produção de grãos e outras fontes de nutrientes e a manutenção dos poucos espaços territoriais que ainda conservam os aspectos de cada Bioma. O intuito é preservar, além das espécies, a capacidade de geração de riquezas do Pampa, valorizando também o desenvolvimento trazido pelo agronegócio:

- O principal risco que o Bioma Pampa corre atualmente é a perda de biodiversidade. Essa perda está relacionada principalmente às atividades agrícolas. Pode-se citar a exploração pecuária extensiva, introdução de espécies forrageiras exóticas e uso indiscriminado de herbicidas. O Pampa já perdeu grandes extensões e mesmo as áreas remanescentes não apresentam mais as condições originais, assim como outros biomas brasileiros.


Área do Pampa registra diversidade de flora e fauna, mas ainda é preciso equilibrar
preservação e a produção do agronegócio (mapa: IBGE/Mapa de Biomas do Brasil 2004)


A professora Analía considera interessante ter um maior percentual de áreas de preservação ambiental, visto que o Bioma Pampa possui a menor área protegida. O conceito de diversidade genética ultrapassa a questão do número de espécies diferentes que vivem em um determinado espaço comum. Daí a relevância de se manter áreas de preservação ambiental: cada espécie que ali vive passou por adaptações muito específicas. O tesouro da biodiversidade, lá do início do texto, constituiu-se ao longo do tempo.

- A diversidade genética de um bioma pode sim ser considerada como um patrimônio, uma vez que essa diversidade corresponde aos diferentes tipos de organismos que vivem e interagem constantemente entre si e o meio. Dessas interações, surgem adaptações morfofisiológicas [de forma e funcionamento] que são únicas para espécies que vivem em um determinado ambiente – analisa o mestrando Douglas Silva dos Santos.

 


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